Saiba como identificar desperdícios de energia nas empresas e encontrar oportunidades para melhorar a eficiência energética da operação
Updated
Energia consumida sem contribuir para a produção, o conforto ou o funcionamento necessário da operação pode indicar desperdício. Equipamentos ligados sem necessidade, vazamentos de ar comprimido, sistemas mal regulados e perdas nos processos são alguns exemplos.
Identificar esses pontos é um dos caminhos para melhorar a eficiência energética. Mas existe uma diferença importante: reduzir o consumo, por si só, não significa necessariamente ser mais eficiente.
Se uma fábrica consome menos porque também produziu menos, por exemplo, não há necessariamente ganho de eficiência. A Empresa de Pesquisa Energética explica o conceito de eficiência energética como a obtenção do mesmo serviço ou resultado com menor uso de energia.
Por isso, identificar desperdícios exige olhar não apenas para quanto a empresa consome, mas também para onde, quando , para qual finalidade e a partir de qual fonte a energia é utilizada.
O que é desperdício de energia?
Desperdício de energia ocorre quando há consumo que pode ser evitado sem comprometer o resultado esperado da operação. Um exemplo simples é um equipamento que permanece ligado quando não há atividade produtiva. A energia continua sendo consumida, mas não gera uma entrega correspondente.
Apesar de estarem relacionados, desperdício, economia, eficiência e gestão de energia são conceitos diferentes:
| Conceito | O que significa | Exemplo |
| Desperdício de energia | Consumo que pode ser evitado sem comprometer a entrega | Equipamento funcionando sem necessidade |
| Economia de energia | Redução do consumo absoluto | Consumir menos MWh em determinado período |
| Eficiência energética | Entregar o mesmo resultado com menor uso de energia | Reduzir kWh por tonelada produzida |
| Gestão de energia | Organizar dados, metas, responsabilidades e decisões | Acompanhar indicadores, linha de base e planos de ação |
Enquanto eliminar desperdícios reduz consumos desnecessários, aumentar a eficiência significa melhorar a relação entre a energia utilizada e o resultado entregue. Entenda melhor essa diferença no conteúdo sobre eficiência energética e Powershift.
Onde podem estar os desperdícios de energia?
Os pontos de atenção variam conforme o perfil da operação. O primeiro passo é entender quais são os principais usos de energia e como se relacionam com as atividades da empresa.
Equipamentos funcionando sem necessidade
Máquinas, iluminação e outros sistemas ligados fora dos períodos necessários podem representar consumo evitável.
Os dados também podem ajudar a identificar esse comportamento. Se uma instalação mantém consumo significativo em períodos de baixa ou nenhuma atividade, vale verificar quais cargas continuam operando.
O objetivo não é simplesmente desligar equipamentos, mas avaliar se o consumo é necessário para entregar o resultado esperado naquele momento.
Motores, bombas e ventiladores
Motores elétricos estão presentes em diferentes processos industriais e podem estar associados a bombas, ventiladores, compressores e outros sistemas.
As oportunidades de eficiência não dependem apenas do equipamento. Também é importante observar:
- tempo de funcionamento;
- carga necessária;
- dimensionamento;
- condições operacionais;
- necessidade do processo.
A substituição do equipamento pode ser uma alternativa, mas ajustes operacionais e de manutenção também devem fazer parte da avaliação.
Sistemas de ar comprimido
Vazamentos em sistemas de ar comprimido são exemplos diretos de energia utilizada sem contribuir para o processo.
Por isso, esses sistemas merecem atenção em inspeções físicas e no acompanhamento do consumo. Mudanças persistentes no comportamento energético podem indicar a necessidade de investigar vazamentos ou outras condições operacionais.
Climatização e refrigeração
Sistemas de climatização e refrigeração podem apresentar oportunidades relacionadas à operação, à regulagem e à adequação às necessidades do ambiente ou do processo.
Entretanto, a variação do consumo precisa ser analisada considerando fatores como temperatura, ocupação e horas de funcionamento. Um aumento ou uma redução pode decorrer dessas condições, e não necessariamente de mudança na eficiência.
Iluminação
Na iluminação, as oportunidades podem estar tanto na tecnologia utilizada quanto no padrão de funcionamento.
Um exemplo é a substituição de tecnologias menos eficientes por LED. A Empresa de Pesquisa Energética apresenta essa troca como uma medida de eficiência, pois permite oferecer o mesmo serviço de iluminação com menor consumo. Conheça os exemplos apresentados pela EPE.
Na escolha de equipamentos, o Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE) informa a classificação de eficiência dos produtos, enquanto o Selo Procel destaca aqueles que apresentam melhores níveis de eficiência dentro da categoria avaliada.
Processos térmicos e uso de combustíveis
Nem todo desperdício energético aparece na conta de eletricidade.
Operações industriais podem utilizar gás natural, GLP, diesel, óleo combustível e outras fontes. Uma análise completa deve considerar toda a energia utilizada no processo, e não apenas o consumo elétrico.
Esse cuidado é particularmente importante em projetos de eletrificação. A substituição de processos movidos a combustíveis fósseis por tecnologias elétricas pode aumentar o consumo de eletricidade e, ao mesmo tempo, melhorar o desempenho energético geral da operação.
Por isso, o aumento do consumo elétrico não deve ser automaticamente interpretado como desperdício. É preciso avaliar também o consumo total de energia e o resultado entregue.
A identificação desses usos também pode revelar oportunidades que vão além da eliminação de desperdícios. Processos térmicos atendidos por combustíveis fósseis podem ser avaliados quanto ao potencial de eletrificação por tecnologias adequadas às condições da operação, dentro de uma estratégia de Powershift.
Como identificar desperdícios de energia?
Encontrar oportunidades exige combinar dados e conhecimento da operação. Essa visão ajuda a diferenciar o consumo necessário das perdas evitáveis.
1. Conheça o perfil de consumo
Comece entendendo quanto, quando e onde a energia é utilizada.
O histórico de consumo pode revelar alterações de comportamento, períodos de maior uso e possíveis desvios. Se o consumo aumenta sem uma mudança equivalente na atividade, por exemplo, há um sinal que merece investigação.
O dado isolado não comprova a existência de desperdício, mas ajuda a direcionar a análise.
2. Identifique os principais usos de energia
Depois de observar o consumo total, é importante entender onde a energia está sendo utilizada.
De acordo com o perfil da empresa, os principais usos podem incluir:
- motores;
- climatização;
- refrigeração;
- iluminação;
- ar comprimido;
- bombas e ventiladores;
- processos térmicos;
- combustíveis utilizados por processo e uso final.
Nos processos térmicos, o levantamento das fontes utilizadas também ajuda a identificar onde existem oportunidades de substituição de combustíveis fósseis por tecnologias elétricas.
Dados separados por unidade, área, processo ou equipamento permitem localizar com mais precisão as mudanças no comportamento energético.
3. Compare consumo e atividade
Analisar apenas o consumo em MWh pode levar a conclusões equivocadas.
Considere uma fábrica que registrou:
- 100 MWh para produzir 1.000 toneladas em um mês;
- 95 MWh para produzir 800 toneladas no mês seguinte.
O consumo caiu 5%, mas a produção diminuiu 20%. No primeiro período, foram utilizados 100 kWh por tonelada; no segundo, 118,75 kWh por tonelada.
Ou seja, houve economia absoluta, mas aumentou a quantidade de energia necessária para produzir cada tonelada.
Indicadores de eficiência energética ajudam a comparar consumo e atividade e a identificar se houve, de fato, melhoria no desempenho.
4. Observe desvios no comportamento energético
Mudanças fora do padrão podem indicar pontos que precisam ser investigados, como:
- consumo maior sem aumento equivalente da atividade;
- equipamentos operando fora dos horários necessários;
- consumo elevado em períodos de baixa atividade;
- alterações persistentes no perfil de demanda;
- piora de indicadores normalizados.
Esses sinais não representam um diagnóstico definitivo. Os dados mostram onde investigar; a análise operacional ajuda a identificar a causa.
5. Estabeleça uma linha de base energética
A linha de base é uma referência utilizada para comparar o desempenho energético ao longo do tempo.
Para que a comparação seja consistente, ela pode precisar considerar fatores que influenciam o consumo, como:
- produção;
- ocupação;
- temperatura;
- horas de funcionamento;
- mix de produtos.
Assim, uma redução causada apenas pela queda da produção não é confundida com uma melhoria de eficiência.
6. Acompanhe os resultados com indicadores
Depois de identificar e tratar uma oportunidade, é preciso verificar se o resultado esperado foi alcançado.
Os indicadores podem relacionar o consumo à produção, à área, à ocupação ou às horas de funcionamento, conforme a atividade. A Empresa de Pesquisa Energética considera a construção e a manutenção de indicadores parte central do acompanhamento da eficiência energética no país. Consulte os estudos e indicadores da EPE.
A medição evita que a avaliação fique restrita à impressão de que determinada iniciativa funcionou.
A ISO 50001 sobre sistemas de gestão de energia também propõe uma abordagem baseada em dados, definição de objetivos, medição de resultados, revisão e melhoria contínua.
Como priorizar oportunidades de eficiência energética?
Depois de identificar os possíveis desperdícios, surge outra questão: por onde começar?
Nem toda oportunidade exige o mesmo tipo de intervenção. Algumas envolvem ajustes operacionais; outras podem demandar manutenção, substituição de equipamentos ou mudanças mais estruturais.
A avaliação pode considerar:
- a quantidade de energia envolvida;
- a fonte energética utilizada;
- o potencial de eletrificação do uso final;
- o processo ou equipamento afetado;
- a necessidade real do consumo;
- as condições que explicam o comportamento observado;
- a intervenção necessária;
- os impactos sobre consumo elétrico, demanda e infraestrutura;
- a forma de medir o resultado.
Essa priorização integra a eficiência à gestão de energia e Powershift, que organiza dados, indicadores, responsabilidades, metas e decisões para melhorar continuamente o desempenho energético.
Reduzir desperdícios é o mesmo que consumir menos eletricidade?
Não necessariamente. Essa distinção é importante principalmente em operações que passam por processos de eletrificação.
Imagine a substituição de um processo abastecido por combustível fóssil por uma tecnologia elétrica capaz de entregar a mesma função com maior eficiência. O consumo de eletricidade pode crescer, mas isso, isoladamente, não significa piora do desempenho.
A avaliação deve considerar:
- o consumo total de energia;
- as fontes utilizadas;
- as condições da operação;
- o resultado entregue.
Em uma estratégia de Powershift, processos e equipamentos movidos a combustíveis fósseis podem ser substituídos por soluções elétricas adequadas, preferencialmente associadas a fontes renováveis.
O objetivo, portanto, não é simplesmente consumir menos eletricidade, mas utilizara energia de forma mais eficiente, reduzir desperdícios e avaliar a matriz energética mais adequada para entregar o resultado necessário.
Qual é a relação entre eficiência energética e transição energética?
A eficiência energética atua sobre a relação entre a energia utilizada e o resultado entregue. A transição energética envolve mudanças mais amplas na forma como a energia é produzida e consumida.
Já a descarbonização busca reduzir as emissões de gases de efeito estufa e pode combinar diferentes frentes, como:
- eficiência energética;
- eletrificação;
- fontes renováveis;
- inovação tecnológica;
- gestão de emissões.
Na prática, identificar desperdícios e melhorar a eficiência pode preparar a empresa para decisões mais estruturais sobre processos, tecnologias e fontes de energia.
Essas frentes são complementares, mas não equivalentes. Uma medida pode melhorar a eficiência sem alterar a fonte utilizada, enquanto a adoção de energia renovável pode reduzir a intensidade de carbono da energia consumida sem necessariamente corrigir desperdícios operacionais.
Da identificação do desperdício à melhoria contínua
Identificar desperdícios é um bom ponto de partida, mas a eficiência energética não deve ser tratada como uma iniciativa isolada. Depois de corrigir um problema, é importante acompanhar os resultados e verificar se a melhoria permanece ao longo do tempo.
A ISO 50001 estrutura a gestão de energia em torno do uso de dados, objetivos, medição, revisão e melhoria contínua. A Empresa de Pesquisa Energética, por sua vez, destaca a identificação dos potenciais de eficiência, o acompanhamento dos resultados e a adoção de metas mensuráveis como partes de uma abordagem sistêmica para o uso eficiente da energia.
Mais do que consumir menos, melhorar a eficiência significa entender onde a energia deixa de gerar valor e como aprimorar a relação entre consumo e resultado.
Conheça também as possibilidades abordadas no conteúdo sobre eficiência energética, eletrificação e Powershift.
Perguntas frequentes sobre desperdício de energia
É o consumo que pode ser evitado sem comprometer o resultado necessário da operação. Equipamentos funcionando sem necessidade e vazamentos em sistemas de ar comprimido são exemplos.
A análise pode combinar histórico de consumo, identificação dos principais usos de energia, observação da operação, linha de base e indicadores. Alterações fora do padrão mostram onde investigar, mas precisam ser avaliadas de acordo com as condições operacionais.
Não necessariamente. A eficiência energética envolve entregar o mesmo serviço ou resultado utilizando menos energia. Se o consumo caiu porque a produção também diminuiu, não é possível concluir apenas por esse dado que houve ganho de eficiência.
Não necessariamente. A substituição de combustíveis fósseis por tecnologias elétricas pode aumentar o consumo de eletricidade e, ao mesmo tempo, reduzir a energia final necessária para entregar o mesmo resultado. A avaliação deve considerar o desempenho do processo, todas as fontes utilizadas e as condições da operação.
A resposta depende da operação. Motores, bombas, ventiladores, compressores, climatização, refrigeração, iluminação e processos térmicos estão entre os usos que podem ser considerados no diagnóstico.
O resultado deve ser comparado a uma referência coerente e considerar as variáveis que influenciam o consumo. Indicadores relacionam energia e atividade, enquanto a ISO 50001 orienta uma gestão baseada em dados, medição, revisão e melhoria contínua.
Sim. A eficiência energética pode reduzir a quantidade de energia necessária para realizar uma atividade. Dentro de uma estratégia mais ampla de descarbonização, pode ser combinada com eletrificação, fontes renováveis, inovação e outras iniciativas voltadas à redução de emissões.