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O que é curtailment? Saiba tudo sobre o corte forçado na geração de energia

Para entender o curtailment, explicamos também como funcionam o Sistema Interligado Nacional (SIN) e o ONS

O curtailment, termo em inglês usado para designar o corte ou a limitação da geração de energia, tornou-se um dos principais desafios do setor elétrico brasileiro. Ele ocorre quando usinas, principalmente de fontes renováveis como a eólica e a solar, precisam reduzir ou interromper a produção mesmo em condições favoráveis de geração.

O problema pode estar ligado a limitações da infraestrutura de transmissão, a requisitos de confiabilidade da operação ou ao desequilíbrio entre a oferta e a demanda de energia. O Sistema Interligado Nacional (SIN), coordenado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), exige equilíbrio constante entre geração e consumo. Quando o sistema não consegue absorver ou transportar toda a eletricidade disponível com segurança, o ONS pode determinar a redução da geração.

Esse corte de geração impacta empresas, projetos e até o avanço da transição energética. Estas restrições sempre ocorreram entre usinas hidrelétricas, mas, a partir de 2024, com o avanço das usinas eólicas e solares, estas também sofreram perdas por restrições técnicas e energéticas, o que reforçou a necessidade de planejamento, expansão e modernização da rede, além de soluções de flexibilidade, armazenamento e aprimoramento regulatório. 


 

O que é o Sistema Interligado Nacional?

 

A maior parte da energia produzida no Brasil está conectada ao SIN, o Sistema Interligado Nacional, e passa por processos de transformação, transmissão e distribuição. A coordenação entre esses elos é essencial para garantir eficiência e segurança.  

O SIN é coordenado e controlado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Nas palavras do ONS, o sistema de produção e transmissão de energia elétrica do Brasil “é um sistema hidro-termo-eólico de grande porte, com predominância de usinas hidrelétricas e com múltiplos proprietários”.

Os agentes e as instalações são interligados por uma extensa malha de transmissão, que permite transferir energia entre regiões e atender ao mercado com segurança e economicidade.


 
O que é o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS)?

 

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) é responsável pela coordenação e pelo controle da operação das instalações de geração e transmissão de energia elétrica no Sistema Interligado Nacional (SIN) e pelo planejamento da operação dos sistemas isolados do país, sob fiscalização e regulação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).


 

O que é e como funciona a transmissão de energia?

 

Transmissão de energia é o transporte de grandes volumes de eletricidade, geralmente em alta tensão, das usinas geradoras até subestações, distribuidoras e grandes consumidores.

Depois de produzida em usinas hidrelétricas, eólicas, solares ou de outras fontes, a eletricidade é conduzida por torres e cabos que formam as linhas de transmissão (LTs).

Nas subestações, transformadores ajustam os níveis de tensão conforme a etapa do percurso. Depois, a energia é entregue às redes de distribuição, que a conduzem até residências, comércios e outros pontos de consumo. 


 
O que é curtailment no setor elétrico?

 

Curtailment é um termo em inglês bastante conhecido no setor de energia e pode ser traduzido como corte ou redução da geração de energia elétrica.

O fenômeno tem afetado especialmente usinas eólicas e solares, cuja produção varia de acordo com a disponibilidade de vento e sol. Quando há necessidade de preservar a segurança e a confiabilidade do sistema, o ONS pode limitar o aproveitamento da energia que estaria disponível naquele momento.

Os cortes também afetam as hidrelétricas. Em alguns momentos, as usinas precisam verter parte da água que poderia ser usada para gerar energia, situação conhecida como vertimento turbinável, deixando de aproveitar esse recurso hídrico. 


 
Quem decide sobre o curtailment de energia? 
 

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determina a redução ou até a interrupção da geração de um empreendimento conectado ao SIN, de acordo com as condições operativas do sistema. O objetivo é preservar a segurança e a confiabilidade do fornecimento de energia.

A nova regra aprovada pela Aneel em outubro de 2026 estabelece uma ordem de prioridade para os cortes causados por sobreoferta de energia, priorizando aqueles que trazem maior alívio de custos ao sistema e restringindo situações que possam aumentar encargos. Já nos cortes por razão elétrica, necessários à segurança e à confiabilidade do sistema, o ONS continuará aplicando a redução onde ela for mais eficaz. 

 

Quais são as causas do curtailment? 


Segundo Júlia Raposo, especialista de Gestão Regulatória da AXIA Energia, existem três principais motivos para o curtailment:

  • Por excesso de geração, quando há mais energia sendo produzida do que o sistema consome naquele momento.
  • Por indisponibilidade externa, quando limitações ou falhas na rede impedem o escoamento da energia.
  • Por requisitos de confiabilidade, quando limites elétricos ou critérios de segurança exigem a redução da geração para evitar riscos à operação.

Na nomenclatura usada pelo ONS para as restrições de geração, essas ocorrências são classificadas por razão energética, por indisponibilidade externa ou por razão de confiabilidade. 


 
Qual é o impacto do curtailment na geração de energia?

 

De acordo com estudo da consultoria Volt Robotics divulgado pelo Valor Econômico, em 2024 os cortes somaram mais de 14,6 TWh e atingiram 1.445 usinas, com impacto estimado de R$ 1,6 bilhão no faturamento das empresas. A mesma fonte atribuiu 65% dos cortes a limitações de transmissão e 35% ao excesso de geração e apontou 330 mil horas de restrições no Nordeste.

“O impacto dos cortes de geração varia conforme a região do país. No Sul, por exemplo, as interrupções são menos frequentes, como no nosso Complexo Eólico Cerro Chato, no Rio Grande do Sul, que tem condições bastante favoráveis quando o assunto é curtailment”, diz Júlia Raposo.

Embora o curtailment seja mais associado às usinas eólicas e solares, a nova dinâmica da matriz também afeta as hidrelétricas, que precisam variar a geração com maior frequência para ajudar a equilibrar o sistema. Em matéria publicada em 30/09/26, o Valor Econômico destaca que a Usina de Tucuruí, da AXIA Energia, registrou mais de 2.100 partidas e paradas em 2024, alta de 20% em relação ao ano anterior.  

O Plano da Operação Energética — PEN 2026, do ONS, confirma essa tendência: a amplitude diária máxima da geração hidrelétrica passou de 38,3 GW em 2024 para 44,1 GW em 2025 e chegou a 46,2 GW até abril de 2026. Esse movimento reforça a importância da flexibilidade operacional para acompanhar as variações das fontes renováveis e manter o equilíbrio do SIN.


 
Como cada usina é economicamente afetada pelos cortes?

 

Como visto anteriormente, cabe ao ONS determinar as reduções e interrupções de acordo com as condições do sistema. Do ponto de vista operacional, não é simples reduzir, em uma situação de sobreoferta, a geração de todas as usinas que compõem o parque gerador.

Como solução, a Resolução Normativa nº 1.170/2026 determinou que, independentemente do agente que tenha tido a geração reduzida, todos aqueles que contribuíram para a instabilidade do sistema deverão compartilhar dos efeitos econômicos deste corte.

Esta condição se aplica especialmente aos casos em que há excesso de geração em relação ao consumo, ou seja, sobreoferta de energia. Nestes momentos, os efeitos contábeis dos cortes de usinas eólicas, solares e hidrelétricas com vertimento turbinável serão rateados entre os agentes elegíveis, na proporção da geração potencial naquele instante, isto é, do quanto poderiam gerar sem as restrições.

Porém, este rateio não começa imediatamente. Em janeiro de 2027 a ANEEL irá operacionalizar um período de transição, quando o rateio dos cortes ocorrerá apenas entre usinas da mesma fonte, ou seja, cortes de eólicas serão compartilhados entre eólicas e cortes de solares apenas entre solares. Posteriormente, em abril de 2028 será apurado o rateio entre eólicas, solares e hidrelétricas com vertimento turbinável. Contudo, a introdução das hidrelétricas ocorrerá de forma escalonada em quatro anos, com o acréscimo de 25% da participação a cada ano.    


 
Como o setor elétrico pode reduzir os efeitos do curtailment?

 

A especialista de Gestão Regulatória da AXIA diz que o monitoramento constante do curtailment, a partir de uma base de dados, ajuda a dar maior previsibilidade, porque “cria um padrão histórico e busca prever cortes futuros, ajudando na modelagem dos nossos projetos e portfólio”.

Entre as respostas estudadas pelo setor estão a expansão e a modernização da transmissão, o armazenamento de energia, cargas flexíveis e o uso mais integrado de dados.  

Perguntas frequentes sobre curtailment

Na prática, parte da energia que poderia ser gerada deixa de ser produzida. A redução, porém, é determinada para manter a operação segura e confiável do sistema elétrico.

Não. Outras fontes também podem sofrer restrições. No Brasil, o tema é mais associado às fontes eólica e solar devido à expansão dessas tecnologias e à variabilidade de sua produção. Além disso, o aumento da participação de fontes variáveis exige maior modulação das hidrelétricas para manter o equilíbrio do SIN.

O ONS determina as reduções dos empreendimentos conectados ao SIN conforme as condições operativas e os critérios de segurança do sistema. 

As restrições podem decorrer de razões energéticas, indisponibilidade externa da rede ou requisitos de confiabilidade da operação.

A redução dos impactos envolve expansão e modernização da transmissão, armazenamento de energia, maior flexibilidade da geração e do consumo, aprimoramento da operação e evolução das regras do setor. 

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